Ele está aqui. Mas nunca é daqui. Esse é o lugar que o antissemitismo reserva aos judeus há séculos.
O eterno estrangeiro é o estereótipo antissemita que trata judeus como forasteiros permanentes. Estão dentro da sociedade, mas nunca fariam parte dela. O filósofo Jacques Derrida chamou essa condição de “pertencimento sem pertencimento”. E Jean-Paul Sartre lembrou de onde ela vem: “O judeu é um homem que os outros homens consideram judeu: eis a simples verdade de onde se deve partir”.
A história começa bem antes dos Estados modernos. Na Europa medieval, comunidades judaicas foram expulsas de reino em reino: Inglaterra em 1290, França em 1394, Espanha em 1492. Léon Poliakov descreve os judeus da época como “esponjas financeiras”, que podiam ser “expulsas, chamadas de volta e sujeitas a prisões em massa” conforme as necessidades do poder. Na Espanha, nem a conversão resolveu: os Estatutos de Pureza de Sangue passaram a excluir quem tivesse ascendência judaica, qualquer que fosse a sua fé.
Com o Estado moderno e a cidadania, a promessa era outra. Não se cumpriu. Alfred Dreyfus era oficial do Exército francês, plenamente integrado, e foi tratado publicamente como traidor estrangeiro no fim do século XIX. Hannah Arendt descreve essa posição como a de “estrangeiros internos”: dentro das estruturas do Estado, fora da comunidade nacional.
A ideologia muda. A estrutura fica. Em janeiro de 1953, na União Soviética, o chamado Complô dos Médicos acusou médicos judeus eminentes de tentar assassinar líderes soviéticos a mando de potências estrangeiras. A máquina estatal falava em “cosmopolitas sem raízes” e “andarilhos sem passaporte”. O antissemitismo de Estado ganhava verniz anti-imperialista.
O Brasil não ficou de fora. Na Era Vargas, intelectuais, políticos e diplomatas usaram o racismo científico para tratar o judaísmo como uma categoria racial indesejada. Segundo Jeffrey Lesser, essa construção serviu para justificar o bloqueio à imigração judaica e a exclusão social desse grupo no país.
Hoje, a mesma necessidade de um “outro” absoluto pode ser transferida para o Estado de Israel, descrito de forma essencialista como presença artificial ou estrangeira na região. O mecanismo é antigo: o judeu não é apenas excluído. Ele é produzido como figura necessária por quem precisa negá-lo para afirmar a própria identidade.
Como identificar na prática
- O discurso separa judeus da comunidade nacional, cívica, religiosa ou cultural dominante.
- O discurso coloca judeus de um lado e a humanidade, ou o “universal” legítimo, do outro.
- Judeus são descritos como quem não pertence de fato à nação, mesmo quando são cidadãos plenos.
- Conversão, cidadania, lealdade, tempo de residência ou participação social nunca bastam para apagar a suposta diferença.
- Judeus, ou “sionistas” usado como código, aparecem como infiltrados, usurpadores ou ameaça à coesão do grupo.
Comparar identidades nacionais, criticar um governo ou debater modelos políticos para a região não é antissemitismo por si só. O limite é cruzado quando judeus, ou Israel como um todo, são apresentados como incapazes, por natureza, de pertencer a algum lugar. As definições da IHRA e a Declaração de Jerusalém convergem num ponto: presumir que cidadãos judeus são mais leais a Israel do que ao próprio país, só por serem judeus, é antissemita.
Explore o tropo completo
Este conteúdo corresponde ao capítulo 4 do Atlas Decodificando o Antissemitismo, da CONIB. O capítulo completo, com fontes e referências, está na plataforma combateaoantissemitismo.org.br.
Episódio produzido com inteligência artificial e revisão editorial da CONIB.

