A acusação diz que judeus usam sangue humano em rituais. A lei judaica proíbe o consumo de qualquer sangue. A mentira contradiz frontalmente aquilo que ataca, e mesmo assim durou nove séculos.
A calúnia de sangue é a falsa acusação de que judeus assassinam cristãos, com frequência crianças, para usar seu sangue em rituais religiosos. Esta aula examina como essa fabricação funciona: um pânico moral que mobiliza imagens de inocência contra violência extrema, construído como espelho invertido da Eucaristia, o que a tornava psicologicamente plausível para a sociedade medieval.
A aula mapeia o rastro de violência que a acusação produziu, de William de Norwich em 1144 ao julgamento fraudulento de Simão de Trento em 1475, do pogrom de Kishinev em 1903 ao pogrom de Kielce em 1946, quando sobreviventes recém-libertados dos campos foram assassinados por um boato nos mesmos moldes. Mostra também sua expansão global nos séculos XIX e XX, o caso de Damasco, o uso sistemático pela propaganda nazista e a persistência do mito mesmo dentro de democracias.
E chega ao presente: o ataque à sinagoga de Poway, em 2019, cujo autor declarou vingar Simão de Trento, e a reciclagem do imaginário medieval em teorias conspiratórias digitais sobre elites que extrairiam substâncias do sangue de crianças. A aula encerra distinguindo o relato factual de vítimas em conflitos da essencialização que reativa o libelo.
NESTA AULA
- O que é a calúnia de sangue
- Raízes e contexto religioso medieval
- Séculos de violência documentada
- Mutações na era moderna
- Manifestações contemporâneas
- Como identificar hoje

